segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Maria do balanço
Na cidade onde nasci, vive uma louca que as pessoas apelidaram de Maria do Balanço. Nem ela mesma sabe o seu verdadeiro nome e parece não se importar que a chamem assim. Desde pequeno, eu a vejo na mesma esquina onde permanece até hoje. O apelido que lhe deram se justifica pelo fato de ela estar sempre balançando o corpo para frente e para trás, embalando, envolto em um xale, um boneco-bebê, que sempre carrega nos braços. Alheia ao calor escaldante dos verões e aos ventos gelados dos invernos, ela aperta a pequena criança contra o peito e a embala como se quisesse fazê-la dormir. Maria do Balanço é uma mulher alegre: ri, conversa com todo mundo e adora bebês. Certa vez, encontrei, nas proximidades da rua em que Maria costuma ficar, uma amiga que carregava a filha de 4 me ses em um carrinho. Começamos a conversar e nos distraímos um pouco. Quando percebemos, a louca estava com a filha de minha amiga no colo, ninando-a. A criança parecia estar gostando muito daquele agrado.
Como é comum nas pequenas cidades - e talvez devido à necessidade inerente ao ser humano de explicar comportamentos considerados estranhos - muitas histórias se criaram em torno dessa figura que já faz parte do folclore do lugar. A mais conhecida conta que Maria vinha de uma família muito rica. Solteira, engravidou de um rapaz numa época em que essa situação era intolerável aos olhos da sociedade. Então, os pais a levaram para outra cidade a fim de que completasse a gestação e tivesse o bebê em segredo. Tão logo o filho nascera, a família de Maria entregou-o para adoção. Maria não teve sequer a chance de segurá-lo, beijá-lo, afagá-lo, amamentá-lo.
E eu me criei convivendo com aquela figura tão peculiar, pois - para ir à casa de minha avó, que ficava ali perto - precisava deparar-me com aquela estranha mulher. No início, quando pequeno, assustava-me dela. Tinha medo – repulsa, até. Com o tempo, fui me acostumando com a sua presença, como nos acostumamos com a construção de um novo prédio, com a ausência de uma árvore que tombou no último vendaval, com alguma figura esquisita recém-chegada à cidade...
Passaram-se os anos, e eu já mudei algumas vezes de cidade. Meus sonhos também mudaram. Alguns abortei; outros me arrancaram. No entanto, Maria - hoje com cabelos brancos e pele enrugada - continua sempre ali, acalentando o filho que nunca chegou a conhecer.
Agora ela não me é mais uma figura estranha. Cada vez que a vejo, olho-a com aquele olhar solidário que destinamos aos nossos iguais. Sim, Maria do Balanço e eu nutrimos certa cumplicidade. Quantos de nós tivemos nossos sonhos arrancados? Quantos de nós, consciente ou inconscientemente, deles abrimos mão? Quantos de nós vivemos a acalentar sonhos passados a cada final de domingo, a cada ida ao trabalho, a cada anoitecer?
Maria permanece ali, naquela esquina, como se quisesse me lembrar de todos os meus sonhos que ficaram para trás. Ela é o retrato vivo de todos os sonhadores que jamais abrem mão de suas utopias. Eles acalentam sonhos. Ela acalenta o filho que jamais terá. Mesmo assim, impressiona-me a devoção daquela mulher àquele filho que nunca conheceu, que jamais foi seu. Na verdade, invejo sua fidelidade e seu compromisso (tão próprio dos loucos) à sua verdade, real ou inventada. No entanto, fui na direção contrária: me esqueci, abri mão de muitos dos meus sonhos... Talvez, justamente por isso, a sociedade me considere normal, saudável – respeitado, até. Sobrevivi. Mesmo assim, tenho consciência de que jamais terei a dignidade daquela mulher. Por isso, toda vez que a vejo, sil enciosamente, lhe peço:
“Embala também meus sonhos, Maria. Que eles continuem vivos ao menos em ti. Acalenta-os e faze-os dormir, porque, assim como teu filho, eles jamais voltarão a mim.”
Para você, do térreo
"Desta vez te escrevo do térreo, do solo sem altura da minha casa. Aqui, meu bem, de alto existe apenas o meu grito, que já não vai mais tão longe como antes. De quantas cartas você precisa para crer no meu amor? De quantas corridas em desespero na chuva e gritos à sua janela você precisa? Diga-me, eu pago os seus preços, eu tolero as suas exigências malucas. Eu te provo o amor para ver se você prova de mim.
Céus, você se esquece de me
amar! Você fixa em sua mente que não te amo e acaba assim, tentando convencer o
coração de que também não me ama. Quem disse? Quem fez a tua cabeça? Eu sou um
louco apaixonado que só não se atirou daquele 12º andar pelo anseio de ir te
encontrar, pois o café quentinho é mais saboroso sentado à sua frente contando
meus casos sem graça que você faz questão de sorrir ao fim de cada um. Eu sou um
doente que não conhece a cura longe de você.
Peço que você sinta comigo a
ardência ambígua que é amar. A minha obsessão tem a sua imagem e tenho medo de
lhe assustar. Amor assusta, você não acha? Amor é pior do que precipício, meu
bem. É me cortar em dois e dar ambas as partes para ti, apenas pela insensatez
de me ver cortar e doer.
Eu já não sei mais onde te
encontrar. Eu não sei, a cidade é grande e você perambula demais. Eu não sei
acalmar o meu coração quando passa por mim alguém com a cor dos seus cabelos ou
o doce cheiro do seu perfume. E também não contenho a insatisfação quando logo
decifro que não é você, afinal, os seus detalhes são seus e fortes demais em mim
para que eu te confunda por essa cidade ou pelo mundo inteiro
afora.
Meu bem, não é porque estou no
térreo que não dramatizo. Talvez, justamente por isso, minha inquietação
aumente, porque me sinto próximo demais dos perigos do mundo, e, sinceramente,
prefiro os perigos do céu, onde a colisão com as nuvens ou o chão me causa maior
expectativa. Aqui tudo é pouco, apesar de ser transformar no tamanho real. E é
isso que assusta: em tamanho real, tudo me parece menor ainda. Mas acalme-se,
meu bem, você segue enorme, cada vez mais grandiosa.
Por favor, pegue essa sua parte
“grandiosa”, a sua imensidão, e venha colar meus pedaços que se deram para ti de
inúmeras formas. Cuide de mim para que eu possa cuidar de ti. Venha ser
reciprocidade comigo, amor em devaneio cheio de razão por existir. De quantas
cartas você ainda precisará para me salvar por definitivo dos abismos entre a
Terra e o céu?
De mim,
ainda dono de um nome pequeno
demais para ti."
Texto de Camila Costa, em http://umaspalavrasamais.blogspot.com/.
Para você, do décimo segundo andar
"Quero te escrever uma carta bonita, contando alguma história cheia de cores e frases encaixadas, mas sou tão escuro e errado, meu bem! Sou tendencioso à tragédia e me assusta te contagiar com ela. Ainda que possamos transformá-la numa coisa bonita, numa tragédia à moda antiga, tenho medo por ti.
Veja bem, estou no último andar deste alto
prédio bem no meio da cidade. O dia está se indo e o sol saindo um pouquinho
tímido. Poderia eu, agora, contar-lhe tudo isso e dizer que lá embaixo um lindo
casal de velhinhos passa de braços dados numa calma desigual. Mas seria tudo
mentira. Se passam, nem os enxergo. De amor, entendo apenas de nós; enxergo
apenas nós.
A verdade – que talvez lhe assuste – é que olho
pra baixo pensando na queda livre. Deve ser emocionante! Neste momento você me
acha um completo louco, não é? Sei que preferias ter outro melhor batendo em tua
porta, e confesso que tento me fazer melhor, mas não consigo. Quando lhe conto
essas histórias sempre com uma face triste, quero mesmo é que você sorria ao fim
de cada uma e me ofereça um café quentinho para falarmos do cansaço do dia. Eu
conto a história triste para você trocar de assunto.
Todo mundo passando na rua parece uma formiga
minúscula daqui. Sabe, meu bem, às vezes penso que a vida é assim: somos todos
formigas pequenas demais. E por que, então, colocamos tanta importância em nós?
Importante é você, eu, eu e você. O resto é pouco. O resto não sabe mais nem me
fazer cócegas. Você é quem me traz todos os efeitos e
sensações.
Agora a sinaleira fechou lá embaixo. Os carros
vivem apressados, você não acha? Quase passam uns por cima dos outros. Eu os
olho daqui e percebo a insignificância deles também. Ah, quer sabe, meu bem?
Depois de nós, o mundo é um grande nada! O mundo tem essas janelas envidraçadas
como essa que me cerca e são todos uns palhaços por verem somente o reflexo
dela, e nunca o através. Eu gosto de olhar o através, creio que já tenhas
reparado. O reflexo me dói, sabia? Ele vem como uma bola de fogo. O reflexo
assusta-me, causa arrepios. Causa mais arrepios ainda quando não o enxergo, e me
pergunto: onde estou? E é tão difícil me achar!
Antes que te deprimas comigo, vou acabar por
aqui, até porque penso que já me perdi nas palavras, como sempre acontece.
Prepare o café, estou chegando. Prepare nossa conversa mais acolhedora e sinta
arrepios pela minha espera. Estou indo, meu bem. Vou sair de perto dessa janela
para ao invés de me jogar dela, jogar-me em teus braços, que me são muito mais
quentes e apaziguadores. Aguarde-me, não demoro.
Do teu amor triste e iludido por
voar,
de mim, muito sem nome que chegue à altura de
ti."
Nada como inaugurar com um texto da minha amiga Camila Costa (@camicostaf)...
Nada como inaugurar com um texto da minha amiga Camila Costa (@camicostaf)...
Texto de Camila Costa, em http://umaspalavrasamais.blogspot.com/.
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