"Quero te escrever uma carta bonita, contando alguma história cheia de cores e frases encaixadas, mas sou tão escuro e errado, meu bem! Sou tendencioso à tragédia e me assusta te contagiar com ela. Ainda que possamos transformá-la numa coisa bonita, numa tragédia à moda antiga, tenho medo por ti.
Veja bem, estou no último andar deste alto
prédio bem no meio da cidade. O dia está se indo e o sol saindo um pouquinho
tímido. Poderia eu, agora, contar-lhe tudo isso e dizer que lá embaixo um lindo
casal de velhinhos passa de braços dados numa calma desigual. Mas seria tudo
mentira. Se passam, nem os enxergo. De amor, entendo apenas de nós; enxergo
apenas nós.
A verdade – que talvez lhe assuste – é que olho
pra baixo pensando na queda livre. Deve ser emocionante! Neste momento você me
acha um completo louco, não é? Sei que preferias ter outro melhor batendo em tua
porta, e confesso que tento me fazer melhor, mas não consigo. Quando lhe conto
essas histórias sempre com uma face triste, quero mesmo é que você sorria ao fim
de cada uma e me ofereça um café quentinho para falarmos do cansaço do dia. Eu
conto a história triste para você trocar de assunto.
Todo mundo passando na rua parece uma formiga
minúscula daqui. Sabe, meu bem, às vezes penso que a vida é assim: somos todos
formigas pequenas demais. E por que, então, colocamos tanta importância em nós?
Importante é você, eu, eu e você. O resto é pouco. O resto não sabe mais nem me
fazer cócegas. Você é quem me traz todos os efeitos e
sensações.
Agora a sinaleira fechou lá embaixo. Os carros
vivem apressados, você não acha? Quase passam uns por cima dos outros. Eu os
olho daqui e percebo a insignificância deles também. Ah, quer sabe, meu bem?
Depois de nós, o mundo é um grande nada! O mundo tem essas janelas envidraçadas
como essa que me cerca e são todos uns palhaços por verem somente o reflexo
dela, e nunca o através. Eu gosto de olhar o através, creio que já tenhas
reparado. O reflexo me dói, sabia? Ele vem como uma bola de fogo. O reflexo
assusta-me, causa arrepios. Causa mais arrepios ainda quando não o enxergo, e me
pergunto: onde estou? E é tão difícil me achar!
Antes que te deprimas comigo, vou acabar por
aqui, até porque penso que já me perdi nas palavras, como sempre acontece.
Prepare o café, estou chegando. Prepare nossa conversa mais acolhedora e sinta
arrepios pela minha espera. Estou indo, meu bem. Vou sair de perto dessa janela
para ao invés de me jogar dela, jogar-me em teus braços, que me são muito mais
quentes e apaziguadores. Aguarde-me, não demoro.
Do teu amor triste e iludido por
voar,
de mim, muito sem nome que chegue à altura de
ti."
Nada como inaugurar com um texto da minha amiga Camila Costa (@camicostaf)...
Nada como inaugurar com um texto da minha amiga Camila Costa (@camicostaf)...
Texto de Camila Costa, em http://umaspalavrasamais.blogspot.com/.

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