"Desta vez te escrevo do térreo, do solo sem altura da minha casa. Aqui, meu bem, de alto existe apenas o meu grito, que já não vai mais tão longe como antes. De quantas cartas você precisa para crer no meu amor? De quantas corridas em desespero na chuva e gritos à sua janela você precisa? Diga-me, eu pago os seus preços, eu tolero as suas exigências malucas. Eu te provo o amor para ver se você prova de mim.
Céus, você se esquece de me
amar! Você fixa em sua mente que não te amo e acaba assim, tentando convencer o
coração de que também não me ama. Quem disse? Quem fez a tua cabeça? Eu sou um
louco apaixonado que só não se atirou daquele 12º andar pelo anseio de ir te
encontrar, pois o café quentinho é mais saboroso sentado à sua frente contando
meus casos sem graça que você faz questão de sorrir ao fim de cada um. Eu sou um
doente que não conhece a cura longe de você.
Peço que você sinta comigo a
ardência ambígua que é amar. A minha obsessão tem a sua imagem e tenho medo de
lhe assustar. Amor assusta, você não acha? Amor é pior do que precipício, meu
bem. É me cortar em dois e dar ambas as partes para ti, apenas pela insensatez
de me ver cortar e doer.
Eu já não sei mais onde te
encontrar. Eu não sei, a cidade é grande e você perambula demais. Eu não sei
acalmar o meu coração quando passa por mim alguém com a cor dos seus cabelos ou
o doce cheiro do seu perfume. E também não contenho a insatisfação quando logo
decifro que não é você, afinal, os seus detalhes são seus e fortes demais em mim
para que eu te confunda por essa cidade ou pelo mundo inteiro
afora.
Meu bem, não é porque estou no
térreo que não dramatizo. Talvez, justamente por isso, minha inquietação
aumente, porque me sinto próximo demais dos perigos do mundo, e, sinceramente,
prefiro os perigos do céu, onde a colisão com as nuvens ou o chão me causa maior
expectativa. Aqui tudo é pouco, apesar de ser transformar no tamanho real. E é
isso que assusta: em tamanho real, tudo me parece menor ainda. Mas acalme-se,
meu bem, você segue enorme, cada vez mais grandiosa.
Por favor, pegue essa sua parte
“grandiosa”, a sua imensidão, e venha colar meus pedaços que se deram para ti de
inúmeras formas. Cuide de mim para que eu possa cuidar de ti. Venha ser
reciprocidade comigo, amor em devaneio cheio de razão por existir. De quantas
cartas você ainda precisará para me salvar por definitivo dos abismos entre a
Terra e o céu?
De mim,
ainda dono de um nome pequeno
demais para ti."
Texto de Camila Costa, em http://umaspalavrasamais.blogspot.com/.

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